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Família: a minha, a sua e as memórias que as rodeiam

Sempre que perguntam sobre as minhas inspirações para a criação do Save the Love, falo da minha família. Apesar de na infância minha vontade ser a de esconder de onde vinha, sobre o fato do meu pai ser quase meu avô, minha mãe ter sido freira, meus seis irmãos de outros casamentos e sobrinhos quase da minha idade. É dessa família que orgulhosamente não se encaixa na “tradicional” brasileira que me lembro quando estou em apuros. Das histórias que atravessam as gerações e que fazem dela também singular.

Em toda família há conflitos. Moro há quase 10 anos longe da minha cidade natal, no interior do Paraná, e só há uns 5 é que consigo conversar com a minha mãe sobre tatuagem e enfrentar meu pai em algumas questões conservadoras. Apesar da lembrança da dificuldade de viver com eles, quando realmente decidi sair de casa, longe deles era ainda pior. No entanto, um dos motivos de não ter voltado pra lá foi a rede de apoio que encontrei em Floripa. Aquelas pessoas que não pertencem aos laços sanguíneos mas que nos ajudam a enfrentar os maiores desafios, sabe? 

Seu Zé baiano, Ana Paula, Teco e dona Vanilde

Quando saí de Santo Antônio da Platina, em 2008, não tinha passado no vestibular em Santa Catarina. Porém, tive que omitir tal informação do meu pai porque ele não deixaria ir embora. E hoje a força que tenho ao levantar da cama de manhã para empreender as mil ideias que saem da minha cabeça vem da lembrança que tenho dele, com mais de 70 anos, também madrugando para colher café e me ajudar financeiramente durante esse período.

Nossa vida nunca foi fácil. Meu pai era o filho mais velho e saiu do interior da Bahia pra tentar uma vida melhor pra ele e para a família. Quando nasci, morava numa fazenda e aos 5 anos graças à minha mãe, sempre inspiradora, nos mudamos para que eu entrasse na escola. Hoje é dela que lembro quando tento ser ousada em alguma ação.

Fábio, Heliane, Júlia, Kaio, Thiago e eu.

Em Floripa, há amigos que vão e vêm. Mas há aqueles que ficam pra sempre no nosso coração. Como a Cleusa e o Vini, que trabalhavam comigo aos fins de semana numa locadora e me ajudavam a contar sobre os filmes para as pessoas. Eu, que não tinha nem espelho em casa durante a infância, um dos fatos por trás da minha vontade em levar um reflexo da vida para as pessoas, era desafiada a pensar num portal para o mundo da magia: o cinema. Tem também os amigos de infância que somem e aqueles que são os  primeiros que vêm à mente quando temos algo bom ou ruim para contar. Como a Heliane e a nossa ligação que foi crescendo ao longo dos anos pelas afinidades na forma de pensar e viver. Meu namorado, a família e os amigos dele, alguns pequenos grupos que começaram na faculdade, as pessoas que fizeram parte do meu último emprego fixo por mais de 3 anos. Cada um à sua maneira. São neles que penso muitas vezes antes até de pensar nos meus pais. Eles são a minha família. Acredito que a família é onde nosso coração está. E por essa razão também gosto tanto da nova definição de família do Dicionário Houaiss, construída a partir de milhares de sugestões via projeto #todasasfamilias. Família: núcleo social de pessoas unidas por laços afetivos, que geralmente compartilham o mesmo espaço e mantém entre si uma relação solidária”. E a uso como guia no Save the Love.

Hoje, por meio do caminho que percorri, gosto de olhar pra trás e conectar os pontos, como disse Steve Jobs certa vez. Não foi por acaso que dentre 3 opções para a faculdade, a que deu certo foi Jornalismo. Sempre gostei de conversar com as pessoas e de ouvir suas histórias. Lembro dos domingos em que ia à missa e ficava um tempão batendo papo com os vizinhos ou amigos dos meus pais. Ou durante a adolescência em que comecei a vender sonhos de doce de leite que deixaram minha mãe conhecida pela massa quentinha e crocante. Só conseguia porque ficava muito tempo conversando ou as ajudando em casa antes de realmente vender o pacotinho com três sonhos de doce de leite ou goiabada.

Quando penso na faculdade, não lembro exatamente de tudo que vivi, por exemplo, como ter lido um livro inteiro – hábito que mudou conforme os anos foram passando. Porém, algo foi marcante e se conecta diretamente com a minha família e com o que trago no Save the LoveFoi após a disciplina da professora Raquel Wandelli, em que produzi uma matéria sobre HIV, que tive a rica experiência de contar de forma sensível o que se passava na vida das pessoas que entrevistei. E também tirei uma foto do celular. Naquela época a resolução era bem ruim e ainda não tinha os aplicativos em que ajustamos os detalhes em minutos. Mas foi a melhor experiência que tive na faculdade: conseguir passar uma mensagem importante por trás de uma história sem espremer o sangue por trás do problema existente ali que justificasse tal matéria.

E foi aí que meus olhos brilharam para uma nova forma de fazer jornalismo.

Nunca cheguei a fazer estágio ou trabalhar numa redação ou na televisão. Meus pais adoram dizer que sua filha é jornalista e são questionados pelos amigos até hoje por não me verem fazendo reportagens para o jornal. Mas o ambiente de pressão e deadlines não era o que eu aspirava. Sou aquela que fica com o papel em branco um tempo antes de começar a escrever de fato. E prefiro ficar atrás da câmera. Depois de algumas experiências na área, cheguei ao Social Good Brasil. Lá me deparei pela primeira vez com a palavra impacto social e com histórias de pessoas que estavam criando algo para mudar o mundo. Sempre adorava ouvi-los e escrever sobre o que inspirava a criação de suas iniciativas. Sempre acreditei que as histórias têm o poder de criar empatia e quem sabe poderiam estimular outras pessoas a fazer a sua parte por um mundo melhor. Foi lá também que conheci a Marcela, uma amiga-irmã que tem uma energia incrível. E juntas começamos o curso de fotografia com o pai dela. Foi aí que a pontinha de contar histórias por meio da fotografia despertou novamente.

Foi assim que, aos poucos e a partir de referências bem diferentes, surgiu o Save the Love. Com o intuito de retratar famílias e oferecer experiências que não tive com a minha, a intenção era também trazer os textos por trás de cada fotografado. Nada melhor do que usar uma habilidade que desenvolvi ao longo dos anos e, a partir disso, explorar de forma sensível a beleza nas vulnerabilidades da vida ao encará-la como um espelho, com seus encantos e imperfeições.

Hoje busco uma conexão mais profunda com as histórias da minha família e tento transmitir isso por meio de experiências com outras famílias. E quando digo famílias, penso em qualquer família, independente de laços sanguíneos, gênero, raça, deficiência, condição econômica ou outra. Onde houver amor, é pra lá que vou à procura de fotografias e palavras que se transformam naquelas recordações que as pessoas lembram quando pensam sobre a famílias e as memórias que as rodeiam. 

Revelar quem somos, os bons momentos e a capacidade de superar os desafios é uma forma unificadora da família contar a sua história às gerações que estão porvir. E n#diamundialdafotografia, também aproveito para compartilhar novos desafios com o Save the Love.

>>> A 1ª edição da oficina Registros com Afeto foi emocionante! Leia aqui o post sobre a vivência com famílias sobre narrativas documentais de família.

>>> Ah, e caso esteja visitando o site pela primeira vez, siga-nos também no instagram @savethelove para acompanhar outras histórias. 😉

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