Fotografia Ensaio Gestante Mathilde Rafa Floripa Sc–5

Narrativa Mathilde e Rafa | O sentir da travessia que traz um novo Ser

Conheci o Rafa há alguns anos no laboratório de empreendedorismo do Social Good Brasil. Desde então já acompanhava sua jornada criativa com o Pensamento Visual. Quando ele me procurou pra contar sobre o rito de passagem pelo qual ele e sua companheira estavam passando, fiquei animada para registrá-los. Quando finalmente conheci Mathilde pessoalmente, entendi o porquê deles estarem juntos. A mesma fluidez que os conectou no dia em que se conheceram, fortalece o casal diante de um grande desafio: o de receber um novo companheiro ou companheira de viagem que os levará à maior aventura de suas vidas.

Conheça a história de amor do casal por meio das fotografias de momentos cotidianos realizadas na casa deles, em Floripa. Desta vez, os retratos foram uma mistura de fotografia documental no café da manhã, fazendo as fotos enquanto conversávamos ouvindo a trilha de músicas brasileiras criada no Spotify com outros momentos fotografados em partes da casa que eram importantes pra eles, mostrando o que faz parte de suas vidas e fotografando suas reações. Tudo sem poses! De forma natural como a vida que corre dentro de casa. São registros com afeto pra salvar o amor!


O sentir da travessia que traz um novo Ser

Mathilde e Rafa se conheceram em Floripa por acaso. Ela, saindo de um retiro xamânico no meio das montanhas catarinenses para fazer um skype com a embaixada da França no Brasil; ele sentiu um instinto que devia sair em busca de um novo lar e deixar aquele bairro que é conhecido por suas belezas naturais mas que só os barcos chegam: a Costa da Lagoa. E assim os dois se conheceram na casa de um amigo em comum. Rafa se mudou naquele dia, enquanto ela chegava de viagem apenas para fazer a ligação em busca de um trabalho. Durante o skype, ela ficou nervosa e o computador não funcionou. Ele a ajudou emprestando o seu. Os dois saíram pra curtir o Carnaval no bloquinho de Santo Antônio de Lisboa. E a dança os conectou ainda mais.

No dia 8 de fevereiro de 2016, quando se conheceram, Mathilde usava plumas indígenas e, em meio à conversa que fluía em torno das viagens dela ao redor do Planeta, Rafa fez uma pergunta inesperada. Ele queria saber se, por ser independente e livre viajando o mundo, ela gostaria de ter filhos um dia. Mathilde costumava responder perguntas como essa de forma desajeitada, porém automática. Desta vez, ela ficou vermelhissíma e quase se asfixiou. “Quando ele me fez aquela pergunta, meio que tive uma visão de eu e ele estando com várias crianças que pareciam nossas e de repente a pergunta ‘você quer ter filhos um dia?’ parecia ser ‘você quer ter filhos comigo?'”, relembra.


Mathilde iria voltar para Minas Gerais no dia seguinte porque não tinha como se sustentar financeiramente na Ilha da Magia. Os dias passaram e ela nunca mais voltou. Algumas semanas depois ela recebeu o retorno da entrevista por skype e foi chamada para uma oportunidade em Recife. Logo a cidade que também foi assunto no dia em que se conheceram e que, segundo Rafa, não era uma opção que escolheria para viver. Foram alguns meses de namoro à distância até que ele decidiu se desafiar e ir atrás da mulher que o marcou por seu olhar forte e que demonstra o amor nas pequenas coisas do cotidiano como o “jeitinho de acordar”.

Recife não era um dos lugares preferidos de Rafa e nem de Mathilde. Lá passaram por grandes apertos e, quando souberam que estavam grávidos, não aceitaram de primeira. Na França a consciência em torno da escolha da mulher tem uma conotação diferente da realidade brasileira. Além das crianças serem levadas à casas de aborto como uma forma de ensinar que aquela opção existe, a média de idade das mães francesas é de 35 anos. Outro motivo pelo qual desanimaram foi o sistema de saúde na cidade, totalmente voltado às cesarianas agendadas, partos em hospitais com alta tecnologia e pouca humanização.

Os dois mencionam a gestação como um grande desafio, pois parecia fora do que eles imaginavam neste momento. E quando se depararam todas essas informações em meio a uma infecção nos rins de Mathilde, eles pensaram em desistir. Porém, 1 mês depois, quando eles decidiram se desconectar de todas as mensagens restritivas e padrões que recebiam de todos os cantos sobre o assunto, a visão de mundo começou a voltar à simplicidade e ao acolhimento. E pensaram: “Será que o bebê e todos os aprendizados que ele vai nos trazer não é o pilar da nossa vida e dos nossos projetos profissionais?”.

E assim vida voltou a fluir como o vento que atravessava a casa deles, numa longa servidão no sul da Ilha de Florianópolis dividia por duas belas praias. A vontade de viver numa kombi ao redor do mundo permanece viva, ainda mais após conhecerem a história de Given, um filme sobre uma família de surfistas que criou o seu mundo em torno de viagens, do minimalismo e do aprendizado que cada lugar traz.

Os dois escolheram retornar para a Ilha que os apresentou e buscarem outras opções para o nascimento do bebê. Ao assistir o filme “O Renascimento do Parto” já haviam se deparado com uma parteira que admiravam, mas só ao chegarem no sul do Brasil é que conheceram Naoli Vinaver pessoalmente. Também encontraram no grupo Ama Nascer  o acolhimento que buscavam. E assim eles integram as famílias que escolhem o caminho natural para a chegada do filho ou a filha, que nascerá em casa, nos braços da mãe, acolhidos por Naoli, pela doula e pelos amigos mais próximos. Eles preparam uma grande festa para esse momento, com detalhes que os deixam à vontade e ainda mais conectados à essa grande mudança em suas vidas.

O casal acaba de comprar uma kombi e planeja viver pelo mundo. Na internet, por meio do projeto attraversiamo, Rafa e Mathilde (carinhosamente apelidados de “Petit oiseau”, que tem o significado de “passarinho” em alusão ao amor de voar pelo mundo) – imaginam uma forma de convidar as pessoas refletirem sobre as possibilidades de atravessar a vida com mais leveza. “Estamos hoje cercados de padrões sociais que nos convidam a ter uma perspectiva de mundo baseada no medo, criando uma atmosfera social tão pesada e densa, que perdemos a conexão com as coisas mais essenciais e importantes da vida”, compartilham num texto no Medium.
E assim seguem conectados e se conectando às pessoas que se entrelaçam nos desejos que compartilham para a vida, aguardando o nascimento de uma criança que renovará as energias e fará com que o casal também renasça a partir da experiência de serem pai e mãe pela primeira vez.

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