Fotografia Ensaio Cotidiano Edi Joao Saojose Sc 27

Narrativa Edi e João | O nego e a nega

Os cachinhos dourados da Dona Edi, a mulher que há 56 anos fugiu com o seu João para viver um amor, estavam bem encaracolados. Como sabia que naquele dia haveria uma sessão de fotos, tratou de colocar bobes nos cabelos para deixá-los, segundo ela, mais bonitos. O casal mora no Kobrasol, em São José/SC, mesmo bairro que escolheram para morar quando decidiram fugir.

Os dois eram vizinhos e amigos. Na época, seu João convidou dona Edi para ir ao cinema, mas os dois eram comprometidos. Mesmo assim, o sentimento que já nutria aquele coração foi mais forte e o convite foi aceito. No dia que seria o primeiro da longa trajetória juntos, dona Edi encontrou o namorado no cinema. Não imaginava a situação, mas para solucionar o que poderia ser um grande problema, resolveu dar fim na relação ali mesmo. “Ouvi de conhecidos que ele chorou muito, mas o que eu podia fazer? Sempre fui encantada pelo jeitinho do nego”, dizia, enquanto seu João ouvia atentamente e concordava rindo e falando “eh eh eh” com o sotaque que demonstrava o lugar de onde vinha, a praia da Armação, na antiga Desterro.

A manhã gelada foi aquecida pelo amor de dona Edi e seu João. A porta que segurava a plaquinha do time Figueirense estava aberta, dona Edi arrumando as bolachas de sal para o café, enquanto o marido ainda dormia. Como costuma fazer diariamente, foi acordá-lo, pois ele também tem suas tarefas para ajudar a arrumar a mesa. Enquanto ele levava melancia, ela segurava o melão. E assim montavam o café na sacada, cantinho preferido para a refeição, onde era possível ver diversos prédios e o mar. Também é nesse local que o casal gosta de sentar para conversar durante a manhã e observar quais vizinhos já acordaram, bem como ver quem levou o cachorro para passear ou checar se a empregada de outro já estava limpando a janela. O sol da manhã iluminava o apartamento e aquecia a sacada de dona Edi e seu João, onde tomavam café de pijama, roupão e pantufa. De repente, o café teve uma pausa.

“-Ô nego, vamo acordar a Pri?”, diz dona Edi.

E ele responde questionando: “-A Pri, cadê a Pri?”.

E saíram dali para o quarto de visitas e da máquina de costura, onde dormia a primeira neta da vó, que nasceu em 1985, mesmo ano em que o casal comemorou Bodas de Prata e finalmente formalizou a relação, 25 anos após fugirem. “Quando olho pra Pri lembro da enfermeira mostrando ela pra mim”, conta a avó orgulhosa. Dá para notar o brilho nos olhos de dona Edi ao falar do passado e relembrar os momentos pelos quais passou. Ela não guarda fotografia porque diz que o presente é o que mais importa. A mulher que diz que as netas não devem ser como ela, “mandona e brava”, conta durante o café que seu João nunca a chama de Edi, sempre de nega e aproveita para questionar:

“-Tu sabe meu nome todo, nego?

Ele responde: “- Pri”.

E ela repete: “Não nego, tu sabe meu nome todo?”.

“-Edi Pires”.

Enquanto isso, a Pri, que já havia acordado, assopra baixinho “Leoni”. E ele consegue completar o nome da amada: “Edi Leoni Amorim Pires”. E o brilho surgia novamente no olhar de dona Edi enquanto contestava: “É por isso que sou avaiana”.

Seu João gosta de ficar papeando na sacada e, se dona Edi não o chama para trocar de roupa, ele passa a manhã de roupão. Ao preparar as coisas, ela mostra as colchas de retalho e os fuxicos que adora fazer. Começou a costurar com 15 anos e, certa vez, quando teve que apoiar o marido ao descobrir uma doença mascarada, fez 400 de uma só vez. “Posso estar brava, quando venho para a máquina esqueço do mundo”. Ela aprende algumas coisas na internet, usando seu tablet ou celular para ver vídeos no Youtube. Conectada, já teve até 3 perfis no Facebook, pois ao esquecer a senha criava outra conta. Suas netas a ajudam apagando perfis antigos. De roupas trocadas, a pantufa continuava nos pés de dona Edi e seu João. Segundo ela, a friagem e a doença vem pelos pés.

Dona Edi considera a vida como um cesto de rosas abertas: “há aquelas que estão lindas e outras mais murchinhas”. Para seu João, as rosas vermelhas são “encarnadas”. Para ambos, não há segredo do amor, talvez por serem almas gêmeas se deram tão bem, mas mesmo assim é preciso saber lidar com cada situação, bem como perdoar e ceder quando necessário. Dona Edi relembra uma frase que ouvia muito de sua mãe e avó: “Quem come a carne, rói os ossos”. Os dois nunca se separam um dia sequer.

“- Quéis águinha”, chegava seu João com uma garrafinha.

Como uma das netas, como ele costuma chamar “a Bru, a Bru”, ele toma água o dia todo. E também oferece para a mulher, que não gosta muito mas reconhece os benefícios para a saúde. O cuidado é uma característica essencial para viver tantos anos ao lado de um amor, além da coragem de tentar algo diferente. Seu João, depois de ir ao cinema com dona Edi, disse: “Eu quero estar casado contigo no meu aniversário, que é 4 de outubro” e logo a pediu em namoro. A moça que tinha acabado de terminar uma relação aceitou na hora e o primeiro encontro foi na Procissão do Senhor dos Passos. Enquanto acompanhava a namorada, seu João ouvia no radinho o jogo do Figueirense. Depois de dois meses, eles fugiram. “Não vi os anos passarem, foi tudo tão bom que quando vi, já estávamos velhos”, disse dona Edi.



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